quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ZDK: epílogo

Em 1952, em um pós guerra europeu, Pietro U. abraçou a oportunidade de recomeço de vida no Brasil, onde ingressou com sua família (a esposa, a filha Agnese e as netas, Adelia e Antonia), convidado por uma universidade para lecionar filosofia. Tal promessa da instituicão educacional em questão nunca se efetivou, diga-se de passagem. E a família aos poucos se adaptava à nova nação.

ZDK, amante de Agnese, não viera junto. Passou anos foragido por diversos países por conta da caça comunista (conforme descrito no primeiro post dessa história de guerra). ZDK eventualmente conseguia algum informação por meio de cartas de seu único irmão vivo na época (segundo consta, tal irmão havia vivia nos EUA, um funcionário da ONU).

Embora ZDK já soubesse onde estava Agnese, havia sido severamente aconselhado por seu irmão para que não a procurasse, sob risco de ser localizado pelos comunistas na época. Em 1954 escreveu a Agnese. Em 1956 ingressou no Brasil, passando a residir dentro do apartamento de Agnese e sua família.

Adelia cresceu junto de sua mãe e ZDK, ouvindo que ele era somente um grande amigo de sua mãe. Seus quartos eram separados. Os anos passaram. Adelia casou-se, nascia então a primeira neta de Agnese, bisneta de P.U. Esta neta passou seus primeiros anos junto à avó. A filha de Adelia convivia com SDK, chamava-o por seu nome (Z.), pois era como todos os chamavam. Esta neta achava de certa maneira normal, mas estranho, o fato de ZDK residir junto de Agnese, de todos, sem compartilharem o mesmo quarto. E assim foi.

Em 1976, após detecção de um câncer nos pulmões, Agnese fora internada para biópsia e não saiu mais do hospital, onde faleceria exatos 30 dias após a biópsia. Agnese sempre havia deixado claro seu desejo de ser cremada, mas estava tão enfraquecida que não conseguia assinar a documentação necessária para que isto ocorresse e foi-se antes de oficializar legalmente sua vontade.

Neste momento, a família reuniu-se e de comum acordo, aceitaram que ZDK falsificasse a assinatura de Agnese para que a cremação fosse realizada. Contam que Adelia não sossegou até que conseguisse realizar a vontade póstuma de sua mãe. Assim foi feito.

Logo após o velório e cremação do corpo, Antonia, até então de acordo com todo os acontecimentos, voltou-se contra sua irmã e ZDK, exigindo-lhe a entrega de todos os bens que possuiam, inclusive do amplo apartamento em que viviam. Caso contrário, relatou claramente que denunciaria a todos por falsificação, fraude entre outras coisas (por conta da cremação de Agnese).

Adelia, assim como os envolvidos, permaneceram estupefactos. Antonia permanecia impassível e havia exigido despejo praticamente imediato de ZDK do apartamento.

Em 1977 Adelia e seu marido trazem ZDK para sua casa, pois não havia onde morar. E porque havia crescido junto a ele. Construíram uma edícula no terreno da casa onde residiam. E lá viveu ZDK até sua morte. As netas de ZDK o tinham como avô, pois Adelia sempre lhes disseram que ZDK era seu pai, avô das filhas.

ZDK era um velho mal humorado, solitário, rude, teimoso, ranzinza. Não se importava com luxo e não queria de modo algum dar trabalho a quem quer que fosse. Levá-lo ao médico era uma verdadeira batalha. Usava um mesmo casaco de lã meses seguidos, a ponto de puirem os cotovelos. Era resmungão. Nos últimos anos de sua vida passou a ser um pouco mais amigável.

Adelia e o marido, bem com suas filhas, cuidavam dele. Quando ele deixava (o que não era fácil).

As netas ouviam as histórias de guerra de ZDK, em dias em que ele estava mais acessível. A neta mais velha "viajava" naqueles relatos. Tão fantásticos, tão cinematográficos. Mas nem sempre ZDK estava disposto, por motivos já explicados.

1984: ZDK contraiu câncer no fígado. O médico havia prognosticado máximo de 6 meses de vida. Adelia o tirou de sua edícula e exigiu que ele passasse a dormir em um dos quartos da casa (por facilidade no trato dele). Nova luta, mas ZDK acabou aceitando. ZDK continuava firme e forte. Negava a paternidade de Adelia, que lhe perguntava várias vezes se ele era seu pai biológico.

Durante 1,5 ano, ZDK fazia tudo sem ajuda. Era forte como um touro. Não pedia auxílio. No entanto, nos 6 meses seguintes, definhou. Angustiava-se por precisar pedir ajuda às netas e à Adelia. Não tinha mais forças para se levantar sozinho de sua cama. Emagreceu drasticamente. Gemia de dor. Víamos a morte se aproximando.

1 mês antes de sua morte, Adelia lhe perguntava novamente, quase como uma afirmação: "Z, você é meu pai real, não é?" Ao que ZDK, finalmente, respondeu, em seu dialeto unicamente compreensível às pessoas de sua família: "Sim.. eu sou seu pai".

Por que não havia dito antes? Porque ZDK conhecia bem a filha que tinha. Sabia que se confirmasse sua paternidade, Adelia abriria mão de uma possível herança daquele pai oficial, o italiano com o qual nunca havia tido contato. E certamente o faria, mas entendeu o desejo de ZDK e o motivo do segredo.

Em agosto de 1988, Adelia já havia avisado as netas que  ZDK não ficaria por mais 3 dias, dado seu estado físico. 2 dias depois, enquanto Adelia tentava aliviar o sofrimendo e confortar o máximo possível ZDK, este lhe solicitou finalmente: " Lascia-me adesso... devo partire". As netas de  ZDK, do lado de fora do quarto, foram testemunhas desta frase, deste pedido.

Adelia retira-se do quarto. ZDK finalmente partia.

A neta mais velha de ZDK, depois de tantos anos, ainda se comove ao lembrar destas histórias. E de sua ida.