sábado, 30 de julho de 2011

ZDK - Algumas das Fugas (Parte 2)

Foram muitos e muitos episódios de fugas, ataques e defesas. Lembrava-se destas histórias e as narrava, já velho, em alguns poucos momentos de descontração. Nunca gostou de falar sobre suas memórias na guerra e só o fazia quando os olhos insistentes das netas, da filha, do genro e familares imploravam. Comovia-se. Seus olhos marejavam. E ninguém mais insistia para que continuasse seus relatos.

1a história: SDK havia sido capturado e enviado para um campo de concentração na Sibéria. Ao contrário dos tantos campos de concentração exitentes, neste não havia cercas farpadas, cães farejadores e (muitas) sentinelas armadas. O motivo? Não havia para onde fugir. Centenas de quilometros de gelo a uma temperatura média de 30o célcius negativos. Não havia comida. Não havia vestuário que os aquecessem. Alimentava-se de penas de galinha, sobras do que era cozido pelos soldados inimigos (daí, sua repulsa, até o dia de seu falecimento, por qualquer receita que incluísse frango e galinhas - sempre afastava os pratos com asco e um grunhido de xingamento). Após 6 meses na Sibéria, junto de seu amigo, um tenente inglês, arriscaram a fuga. Escondiam-se e protegiam-se do frio e do vento dentro de buracos na neve (princípios do iglu). E conseguiram escapar.

2a história: Havia já reencontrado alguns de seus companheiros de pelotão. Precisavam fazer uma travessia sem serem vistos (óbvio). ZDK e alguns soldados esperaram até o anoitecer para percorrerem um pântano. Os sons daquele pântano o aterrorisavam. Sons de animais, sons que suas mentes ouviam, estimulados pela visão de uma paisagem nefasta, escura e horripilante. Instruiu seus homens a não olharem para os lados ou para trás. Os gases do pântano tornava a visão difícil e a imaginação fértil. Contava, já velho, que durante cerca de 2 horas de passagem este talvez tenha sido o momento de maior medo e pânico que viveu. Podia jurar que via olhos vermelhos que os observavam de dentro da mata enquanto faziam a ultrapassagem.  E embora afirmasse que os tivesse visto, deixava um ponto de dúvida, já que o scotch barato que haviam tomado poderia ter deturpado um pouco a visão de suas mentes cansadas.

3a história: Sua frota havia tido baixas. Junto aos demais sobreviventes, precisavam chegar a outro lado de uma determinada ponte. A única opção eram que fossem nadando pelo rio. À noite, sem emitir qualquer tipo de barulho, pois sobre a ponte estavam dezenas de soldados nazistas. E foram. Detalhe: era início do inverno e as águas, na superficie, já estaval cristalizadas pelo gelo. Hipotermia e congelamento de pernas durante a travessia nadada foram alguns de seus obstáculos. 

4a história: Estava no campo. Havia sido capturado pelos nazistas. ZDK e todos os prisioneiros capturados, após terem sido obrigados a cavarem suas valas, foram metralhados. Caídos nas valas, foram enterrados. Após a retirada dos soldados nazistas, civis/camponeses mortos de fome correram para as valas, no intuito de pegarem roupas, calçados e mesmo relógios, dentes de ouro, etc dos cadáveres (prática comum durante as guerras). Após cerca de 15 minutos considerado morto, ZDK via novamente a luz do sol.

ZDK - Histórias Verídicas da II Guerra (Parte 1)

Nascido em 1906 em uma cidade próxima a Varsóvia, ZDK foi o mais velho de 5 irmãos de família nobre e rica, da qual receberia o título de príncipe ( nesta época eram relativamente comuns os títulos de nobreza nas famílias européias).
Em 1939 Varsóvia é invadida pelos nazistas.
ZDK servia às forças armadas polonesas como Capitão de Frota Pesada (vulgo tanques de guerra - não haveria melhor posição a este homem de 1,70m, cabelos castanhos, sóbrio, sisudo, teimoso como uma mula e rude como uma rocha).
A peculiaridade aqui, é que atuava como espião para os Aliados.
O exército soviético, oficialmente contrário ao nazismo, convenientemente aproveitou o ensejo para eliminar representantes de todos aqueles que eram tidos como "inimigos do povo" (Com a tomada do poder pelo comunismo, os nobres e seus representantes passaram a ser considerados inimigos públicos do povo. Eram  e foram assassinados).
Retomando o início deste relato: SDK e sua família eram materialmente abastados e detinham títulos de representantes da nobreza. Portanto..
ZDK estava fora de sua residência. Soube, por um informante seu, que o exército soviético tinha a missão de eliminar todos os "inimigos do povo". Não poderia arriscar ser descoberto (era espião), mas correu na tentativa de avisar seus parentes para que se protegessem.
Esbaforido, chegou somente a tempo de sentir o cheiro da pólvora queimada das metralhadoras comunistas sobre corpos ainda quentes de seus familiares. Somente 1 de seus irmãos havia sobrevivido e conseguido escapar,  com o qual fez contato no pós guerra (parece que este irmão, posteriormente, tornou-se tornou um funcionário da ONU).
Por anos e anos depois do término da guerra, mesmo fora da Europa, ZDK, por recomendação secreta de seu irmão sobrevivente, não assinava seu segundo sobrenome (o sobrenome do título de nobreza). Por precaução. E assim foi até seu falecimento, em 1986, (anterior à Queda do Muro de Berlim).