quinta-feira, 14 de abril de 2011

Caros,
um pequeno acontecimento hoje me levou a escrever este post, cujo motivo espero ficar claro ao final.
Iniciemos a "aula" com estes 2 vocábulos de significado semelhante, porém distintos:

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa:

MENTIRA
Acepções
substantivo feminino
1    ato ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude
2    hábito de mentir
3    afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro
4    qualquer coisa feita na intenção de enganar ou de transmitir falsa impressão
5    pensamento, opinião ou juízo falso
6    Derivação: por extensão de sentido.
     aquilo que é enganador, que ilude, que se aproxima da verdade ou é real apenas na aparência; ilusão, fábula, ficção 
   
IRONIA
Acepções substantivo feminino
1    Rubrica: retórica.
     figura por meio da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender; uso de palavra ou frase de sentido diverso ou oposto ao que deveria ser empr., para definir ou denominar algo [A ironia ressalta do contexto.]
1.1    Rubrica: literatura.
     esta figura, que se caracteriza pelo emprego inteligente de contrastes, us. literariamente para criar ou ressaltar certos efeitos humorísticos 
2    qualquer comentário ou afirmação irônica
3    Derivação: por extensão de sentido.
     uso de palavra, expressão ou acepção de caráter sarcástico; zombaria
5    Derivação: sentido figurado.
     contraste ou incongruência entre o resultado real de uma seqüência de acontecimentos e o que seria o resultado normal ou esperado
5.1    Derivação: sentido figurado.
     acontecimento ou resultado marcado por esse contraste ou incongruência 


Ou seja:

A mentira sempre traz o ato INTENCIONAL de enganar.
A ironia traz o intenção do ESCÁRNIO e da ZOMBARIA. O contrário do que se quer dizer.

A mentira tem como objetivo ocultar, ludibriar. Pressupõe a falta de discernimento do receptor (pessoa para quem é dirigida a mentira) para identificar o falso do verdadeiro.

A ironia tem como objetivo ressaltar o absurdo da situação, do contexto ou colocação feita. Pressupõe a capacidade do receptor (descrito acima) de compreender o chiste e discernir o real do verdadeiro.
A ironia, tecnicamente, envolve uma mentira. A mentira não necessariamente envolve a ironia.

Exemplos ilustrativos:
MENTIRA: Moro em um palacete com 34 cômodos. Tenho 6 criados, minha vida é linda e tranquila e dinheiro me sobra.
IRONIA:  Moro em um palacete com 34 cômodos. Tenho 6 criados, minha vida é linda e tranquila e dinheiro me sobra.

No primeiro exemplo (MENTIRA), afirma-se com veemência o conteúdo da frase, a fim de fazer com que os receptores da mensagem acreditem de fato no que foi dito. Pressupõe-se que os receptores não tenham condições (por diversos motivos que aqui não abordarei) de entender e questionar a veracidade de tal afirmação.
No segundo exemplo (IRONIA), afirma-se algo contrário à realidade com a intenção de zombar da mesma. Pressupõe-se que seus receptores conheçam a realidade do emissor (aquele que emitiu a afirmação) ou que tenham capacidade para questionar a validade do que foi dito.

Finalmente, por que este assunto? Porque se existe algo que pode me ofender (uma das poucas coisas,  aliás) e me chamarem de mentirosa.
Se já menti? Óbvio que sim. E minto ao menos umas 5 vezes por dia. Geralmente por motivos "diplomáticos" (Uma desculpa para não precisar ir a uma reunião enfadonha de trabalho com chefe panaca, por exemplo). Não sou santa, não sou Deus, não sou monja, mas no dia-a-dia, conquistei um certo respeito por parte das pessoas com quem convivo (profissionalmente, familiarmente etc).
Fato é que felizmente (acho, por sorte, não sei), desde cedo me dei conta de que as mentiras me delatam. Eu me entrego. Prefiro, por isso, desde há muito e muito tempo, falar a verdade quando me perguntam. Por mais absurda que seja.
Se perco a hora para o trabalho e me questionam não tenho dúvidas: "Desculpe, perdi a hora. "
Se não consigo produzir: "Estou cansada, me disperso, preciso de alguns dias de descanso".
Se uma parente me convida para um chá de bebê: "Vc vai ficar muito chateada se eu não for?"

E acreditem: as pessoas entendem!!!! A ponto de se anteciparem com algumas saídas. Sabem como sou.  E este "como sou" envolve inclusive uma convivência, por muitas vezes, virtual. Gente que nunca me viu ao vivo.

Por outro lado, minha vida, minha linguagem foi escrita por meio das ironias. Dos questionamentos e das brincadeiras. Disto não consigo me livrar. E, parafraseando uma colega (só a conheço virtualmente) de que gosto muito, creio que esta minha "diferença" (dentre outras tantas), ao mesmo tempo que me gera certo sofrimento e dificuldade de enquadramento, é também uma das minhas maiores soberbas.

Portanto, amiguinhos, não me chamem de mentirosa. A não ser que queiram cortar relações. Não duvidem da importância disto na minha vida, porque já cortei muitas. Eu instigo as pessoas, cutuco, provoco e levanto dúvidas continuamente. Para que pensem. Se estou errada em alguma colocação, mostem-me. Mostrem-me com clareza e não com a construção de um factóide compartilhado por outros tantos. Do contrário, mantenho meus posicionamentos e minhas verdades insosas.

Creio que seja desnecessário dizer o quanto abomino pessoas influenciáveis. Eu sei.. este é um dos meus calvários.

Uma cena filme "Training Day" (o maravilhoso Denzel é um policial corrupto, líder de uma equipe igualmente corrupta. Está treinando um novato, que na cena abaixo finalmente não consegue compactuar com a situação).  A quem se interessar, a partir do 8.45 (após invadir a casa de um traficante). Tirem suas próprias conclusões:


Frase brilhante (sem ironia) de Denzel ao novato: " A verdade não é o que você vê, mas o que você pode provar".
Meu comentário: Ainda que não se consiga provar, a verdade É O QUE VOCÊ SABE. Sua consciência dita, independente de quantas pessoas digam o contrário.


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